blog do André Valente


Histórias que o tempo perdeu
27/03/2008, 02:13
Filed under: Pessoas que o tempo esqueceu

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Francisco Dias Velho – 1630(?)–1693

Bandeirante caçador de índios, fundou a Vila Desterro na Ilha de Santa Catarina. A capela que construiu é hoje a Catedral de Florianópolis. Morreu em um ataque pirata que devastou seu povoado.

– – – – – –

    A Última Noite de Francisco Dias Velho
    por Joel Ferreira Neto*

    Lhe falta chão, lhe falta ar. Ele acorda em queda, para descobrir que está na sua própria cama. Respira raso. Luzes varrem o corredor, vozes sussurram ao longe. Alguém entrou em sua casa. Tateia no escuro por algo no chão, qualquer coisa que possa servir de arma. É assim, de gatinhas, que um homem lhe encontra ao entrar em seu quarto. Fede, esse homem, seu cheiro lhe precede. Ele tenta se levantar, tenta receber esse invasor com seu mais forte golpe, mas sua velocidade não é mais a de outrora. Ele percebe, justo nessa hora, que é velho – que ele não é mais um caçador, ele é um velho fazendeiro. Enquanto esse homem é jovem e vigoroso e lhe acerta um porrete no ombro. Ele vai ao chão, de costas. Sua mulher acorda, sem nem entender o que acontece, que figura é essa no umbral, essa silhueta desconhecida. Reconhece o marido no chão. Grita e continua a gritar, até levar um tapa. Chora escorrendo da cama, arrastando-se pelo chão com os lençóis. Tenta alcançar o marido. O velho do marido. E ele, mesmo velho, levanta-se pela metade, apoiado em uma perna, para ser empurrado pelo homem e voltar ao chão. Esse invasor que fede a fumaça. Por mais que se esforce, ele é velho e não consegue se levantar de novo. Não consegue lutar. Chegam outros. As tábuas do chão rangem com seus passos.

    São muitos. Eles querem a prata. Ou o dinheiro. ‘La plata’, insistem. Ele tenta convencê-los de que não possui nem um nem outro, sem sucesso. Lhe amarram as mãos. Lhe empurram pela casa. Sua mulher chora no quarto que ficou pra trás. Agora grita. Ele não consegue contar quantos invasores são. Cinquenta, imagina. Alivia-se ao ver o quarto de suas filhas trancado. Desespera-se ao ver três homens tentando quebrar o ferrolho. Lhe empurram escada abaixo. Ele consegue pisar nos primeiros degraus, mas a velocidade é muita e ele cai de lado nos últimos. Escorrega até o chão, derruba a pilha de lenha. De costas no chão da cozinha ele vê, no pátio, homens batendo em seus filhos. O pequeno chora e se encolhe. O mais velho apanha de três. Ele tenta levantar, ralhar com os invasores, tenta chamar seus filhos, mas lhe falta ar. Lhe levantam pelos braços. Lhe põem em pé. Lhe carregam porta afora. Ele pensa por um instante que já é dia, mas logo percebe que a claridade que lhe recebe na rua é das casas pegando fogo. No céu, a fumaça reflete a claridade das chamas. Atearam fogo na sua cidade. Invadiram sua ilha.

    Lhe carregam campo acima. Ao longe, ouve suas filhas gritando. Tenta voltar. Lhe socam a barriga. Ele grita, esperneia, tenta voltar, seus olhos se enchem de lágrimas. Acertam a coronha do mosquete em sua nuca. Ele cai de joelhos, levantando uma nuvem de poeira. Gritam em seu ouvido. Querem la plata. À sua esquerda vê um corpo no chão. Não reconhece. Sabe que o conhece, mas, assim, pode ser qualquer um. Poderia ter sido o guarda, o pescador, o marceneiro, mas não importa: agora é um cadáver. Um cadáver sem rosto. Carne. Lhe levantam pelos braços novamente, lhe põem pra subir a ladeira. Suas filhas continuam gritando. Ouve tiros. Segurando um urro, tenta esconder a inveja que sente do cadáver. Olha para cima e vê a cruz. Seu cruzeiro. Aproximam-se da capela. A igreja que ele construiu. No que lhe soltam de forma descuidada ele consegue se desvencilhar e correr na direção de sua cidade em chamas. Agora sua casa também em chamas. No mar, ao longe, manchas brancas refletem o fogo. Velas. Ele pára de correr.

    ***

    As mesmas velas que viu mais cedo, no mesmo dia: de manhã um índio-escravo veio chamar, dizendo que aportou um barco numa praia a nordeste. Ele juntou um grupo e foram a galope. Os marinheiros aparentemente se assustaram com os tiros de mosquetes e os gritos, voltaram ao barco e zarparam. Não lhe ocorreu no momento que tivesse sido fácil demais. Era, afinal, apenas a segunda vez que teve um embate com piratas. Nunca teria imaginado que eles fariam meia-volta e, no meio da noite, invadiriam a cidade, lhe tomando como refém, o carregando até a capela em busca de prata.

    ***

    Abrem as portas. Lhe empurram pra dentro. Ele tropeça no degrau de pedra, mas não cai. Não cairá de novo. Ele tenta ficar em pé, tenta ficar atento. Acendem as tochas. O altar se ilumina. Procuram ouro e prata nos castiçais, nos santos, nos ornamentos. Vai tudo ao chão. Derrubam a pia batismal. Mas a prata não está na capela, a prata está em Santos.

    ***

    Um ano atrás outro navio pirata aportou. Desembarcou toda a tripulação, para tirar craca da quilha, primeiro um lado, depois outro. O lastro do barco era quase todo de prata roubada. Toneladas de prata, espalhadas pela praia, espelhando a luz do sol. Um palacete sem paredes, sem teto, sem móveis. O barco e a prata vieram do Peru, fizeram a curva no Cabo Horn e pararam na ilha, por alguma razão. Tripulação doente, sofrendo de inanição e escorbuto. A galope ele os atacou, junto de seu grupo armado. Protetores da ilha. Não foi tarefa difícil render uma tripulação doente e confiscar a prata. Tarefa difícil foi fazer a coisa certa, carregar a prata até Santos e entregá-la ao Rei – levando consigo os piratas à justiça. O interrogatório dos piratas comprovou: nem uma lasca de toda a prata ficou na ilha. Tudo foi para Santos. Não ficou nada na ilha. Nada na capela. Por isso derrubam os castiçais, quebram o vitral, gritam e derrubam a mesa. Porque, na sua cidade, ele não permitiu que ficasse uma grama da prata roubada. Porque, na sua ilha, certa vez ele não permitiu que aportasse um barco pirata.

    ***

    Dois homens fazem força para derrubar o crucifixo, que possui um pequeno filete folheado a ouro. Um dos homens lhe dá as costas. Enquanto o crucifixo cai no chão, quebrando o Cristo de madeira em vários pedaços, o velho consegue furtar a espada de um pirata distraído. De mãos amarradas ele atinge um oponente pelas costas. Quando tentam lhe segurar, corta um braço de um deles, arranha uma barriga. Um clarão. Pólvora e fumaça. Cai no chão e derruba a espada, procurando um significado. Seus olhos encontram um dos homens empunhando um mosquete. Percebe então que está morrendo. Morrendo no mesmo local em que, há mais de vinte anos, levantou um cruzeiro de pedra. Morrendo no ponto que escolheu para iniciar sua cidade, enquanto caçava carijós. Morrendo onde sua cidade nasceu. O sangue avança pelo espaço entre as pedras do chão. Os homens saem da igreja. Ao longe, o fogo, a fumaça, os gritos. Mais longe ainda, o mar.

    Lhe falta chão, lhe falta ar. Se afoga sem sair de terra. Morre junto de sua cidade. Morre antes de nascer o dia.

– – – – – –


* Joel Ferreira Neto é jornalista e historiador português. Açoriano, tem um particular interesse nas colônias de seu povo.

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9 Comentários so far
Deixe um comentário

Demorou, mas saiu.
Falei que ia ser mais curto, mas não foi.
Foi mal aí.

Comentário por André

Mais histórias que o tempo perdeu:

– Bivio Savognin
– Carmen Echeverry Robles

Comentário por André

Companheiro em ONG-PAS estamos resgatando parte desta historia possivelmente o navio deste pirata q veio a matar Dias Velho, visite-nos na praia dos Ingleses atraz da marina do Costão do Santinho. Quem lhe responde é o Castelo q o vai receber em sua visita a nós. Nosso site ongpas.com

Comentário por castelo

Maravilha!

Comentário por Cesar Valente

Muito bom!
Curte aê, o blog do voodoozinho
http://voodoozinho.wordpress.com

Comentário por mateusgandara

Adorei o desenho. Adorei o desenho. Adorei o desenho. Ainda não li o texto.

Comentário por aliceprina

E as manchas, também adorei.

Comentário por aliceprina

Há 300 anos, quando o bandeirante Francisco Dias Velho colonizava o litoral catarinense, conquistou um magnífico tesouro do famigerado pirata inglês Robert Lewis e o enterrou em algum lugar da ilha de Santa Catarina. Hoje, os descendentes destes dois protagonistas, buscam numa eletrizante caça ao tesouro pelo local onde descansa este valioso butim. Mesclando fatos reais com uma ficção de tirar o fôlego, você é convidado a embarcar nesta aventura passando por fortalezas perdidas, misteriosas inscrições rupestres, pedra do Santinho, Revolução Federalista e sociedades secretas.
O livro “O Tesouro de Dias Velho” de Paulo Guinter, conta a história deste bandeirante e seu tesouro deixado para as gerações futuras.

Leia o primeiro capítulo de “O Tesouro de Dias Velho” clicando na aba superior correspondente do blog pauloguinter.wordpress.com.

Para comprar o livro “O Tesouro de Dias Velho” acesse http://www.clubedeautores.com.br

Comentário por Paulo Guinter

Sem querer ofender, mas não existe cunho histórico na redação. Como romance pode servir.

Paulo Rosa

Comentário por Paulo Rosa




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