blog do André Valente


Histórias que o tempo perdeu
10/02/2008, 03:02
Filed under: Pessoas que o tempo esqueceu

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Carmen Echeverry Robles – 1933-1986

Carmen Echeverry Robles nasceu, viveu e morreu em Tolú, na Colômbia, sem nunca ter ultrapassado os limites do município. Sonido Salado, um romance semi-autobiográfico de mais de mil páginas pode ser considerado sua obra prima perdida, antecipando um realismo fantástico similar ao de García Márquez, mesclando-o com uma visão feminina sensível e temerosa. Acredita-se que no livro a narradora passe por uma série de episódios surreais, metáforas da adolescência, da prisão de um casamento infeliz e da libertação de uma morte violenta. Um dos raros trechos remanescentes da obra:

    “Sinto uma pressão dentro da pele do nariz. Um ponto de pressão entre a asa do nariz e o rosto, algo que precisa sair. Peço desculpas, peço licença, vou ao banheiro, tranco a porta. Do espelho posso ver um ponto branco, que pede licença para sua própria saída. Espremo com a ponta dos dedos indicadores e, aos poucos, algo encontra seu caminho para fora de mim, erigindo-se para fora de um poro no meu nariz. De dentro do poro sai um fio, um fio metálico azul, quase roxo, quase verde, que ilumina no contraste à luz. Essa luz amarela e fraca que, sobre o espelho, ilumina os ladrilhos verdes do banheiro, meu vestido branco, minha pele ocre até chegar, finalmente, no meu fio azul – quase verde, quase roxo. À medida que espremo, o fio sai aos poucos, tem dois milímetros de comprimento, cinco, oito, um centímetro. Posso pegar o fio com os dedos e puxá-lo, e ele não pára de crescer. Incrível como é resistente, como não quebra. Por um segundo chego a pensar que o fio conseguiria, sozinho, sustentar meu peso. Seria eu então uma pipa? Se o vento crescesse, batesse forte, emborcando barcos e derrubando placas, obrigando as pessoas a voltarem para dentro das casas, eu poderia amarrar meu fio mágico em um portão, ou um poste, ou uma árvore, e deixar-me ser carregada pelo vento? Seria esse fio comprido o suficiente para me ancorar enquanto vôo sobre os prédios, sobre as pessoas tão pequenas, formigas ao longe, e olhe minha casa, meu jardim, o carro de meu pai, como tudo é pequeno! Olhe como fica cada vez mais difícil olhar, como a casa se mistura às outras, como o telhado não tem nada de diferente dos outros, onde moro mesmo? Qual é a minha rua? É essa a minha cidade? Que praia é essa? Só vejo o mar e o meu longo fio azul que vai até um portão, ou um poste, ou uma árvore, coisas pequenas demais para serem vistas. Um nó na terra que, cada vez mais distante, puxa mais de mim, me esvazia ao longe. Me desfia como a um suéter de tricô. E não vejo mais céu, não vejo mais mar, e na falta do que ver, vejo a mim mesma, no banheiro, com licença, volto já, me olhando no espelho, com um fio de dois centímetros entre os dedos. E se esse fio não cresce indefinidamente? E se esse fio acaba com dois metros de comprimento? E se o nó não fica em terra, ao longe, mas fica – arre! – dentro de mim? Seria isso uma coleira? Seria esse fio feito para ser amarrado à outra pessoa, meu mestre, andando a dois metros na minha frente? Eu, uma nova marca de relógio de bolso. Do bolso do meu dono sai um fio azul que, dois metros atrás, conecta-se ao meu nariz. Meu fio – quase roxo, quase verde –, meu dono, sim senhor, não senhor, já estou indo, já chego, vá na frente que eu sigo, espere que já busco. É um nó dentro de mim que impede que o fio se alongue, que impede que eu me distancie da pessoa, do mestre, do dono. Batem na porta. Já vou, com licença, desculpem, saio já. E eu com um fio de dois centímetros pendurado para fora do nariz. Nunca descobrirei pra que serve o fio, que comprimento tem, onde dentro de mim ele se ancora. Corto-o rente à pele (incrível como é frágil, como arrebenta fácil), empurro o resto de volta pra dentro do poro e já não sei mais direito de onde saiu. Abro a porta e, com um pedido de desculpas pela demora, esquecerei para sempre que, um dia, eu tive um fio azul, quase roxo, quase verde, que iluminava no contraste à luz.”

Carmen casou-se em 1953 aos 21 anos, com o contador Héctor Osorio Robles. Era esposa dedicada, dona de casa aplicada e mãe devota de quatro filhos, Arnoldo, Carlos, Leonel e Óscar. Ninguém de sua família jamais a viu nem com caneta na mão, nem sentada à frente de uma máquina de escrever. Morre em 1986 aos 53 anos, durante o sono, de problemas cardíacos.

Em 1992, seu filho mais velho, Arnoldo Hector Robles – “problemático desde pequeno”, segundo seus irmãos e pai – encontrou mais de 40 cadernos espiralados, escondidos num alçapão dentro da garagem. Foi a primeira vez que alguém teve contato com o grande segredo de Carmen Echeverry Robles: centenas de textos, da prosa a poesia, do conto ao romance. Datados e devidamente catalogados com marcadores de cores diferentes, os cadernos possuíam uma produção literária surpreendente, abrangendo desde o surrealismo de Sonido Salado, passando por um romance histórico protagonizado por ciganos durante o século XIX, chamado Lo Grande Que Es Perdonar, até uma espécie de comédia de ficção científica entitulada Más Allá De Las Estrellas, com naves espaciais movidas a vapor, contada completamente em pentâmetro jâmbico. O mais espantoso era o que a catalogação cuidadosa revelava: nem uma letra foi escrita depois de 1951, o ano em que Carmen conheceu Héctor. Toda uma carreira de escritora, incluindo amadurecimento de estilos e experimentações formais, entre os 12 e 18 anos de idade, abandonada subitamente e jamais retomada.

Durante a década de 90 Arnoldo empenhou-se no projeto de publicação dos cadernos, apresentando-os para as principais editoras colombianas e venezuelanas. Apesar da boa aceitação e das palavras de incentivo do trabalho em si, anos se passaram e a obra de Carmen – possivelmente por influência de Arnoldo – acumulou rejeições de quase 30 editoras*.

Em 1999, Arnoldo havia mergulhado nas drogas e, cada vez mais depressivo e paranóico, desistiu de publicar o trabalho de sua mãe, alegando a falta de apoio de seu pai e de seus irmãos, chegando até a declarar que prefere viver nos cadernos de Carmen do que viver no mundo real. Morre no ano de 2001, atropelado na frente da garagem onde, anos atrás, encontrou os cadernos espiralados. Ninguém sabe, no entanto, se Arnoldo os escondeu ou destruiu antes de morrer. A verdade é que, até hoje, eles estão perdidos.

* Em 1998 a Ediciones Follio – que publicou, entre outros, García Márquez – fez inúmeras tentativas – fracassadas – de publicar Sonido Salado. Arnoldo rejeitava qualquer oferta, alegando no fim das contas que, ou publicava as obras completas de sua mãe, ou não publicava nada. Durante as negociações foram feitas várias propostas de capa e amostras tipográficas, todas rejeitadas. Porém, ironia do destino, os trechos do livro que figuraram nessas contracapas e pedaços de bonecos são o único registro acessível hoje de toda a obra de Carmen Echeverry Robles.

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11 Comentários so far
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Foi mal aê. O próximo vai ser mais curto.

Comentário por André

Gradei desse. :) Aí, não li o texto não, aí, pois agora que ver o episódio 2 do Lostzinho, hihihih Té amanhã

Comentário por aliceprina

Quando é que sai o livro “Histórias que o tempo perdeu”? Eu compraria :)

Comentário por Pedro

parece que tudo aconteceu com a maior veracidade!

tb compraria esse livro!

gostei do oculos de carmen!

Comentário por lu bastos

Nunca gostei de ler biografias. Eu quero é ler os livros dela!

Comentário por aliceprina

Então, esperem eu juntar mais umas 20 historinhas dessas.
Aí a gente conversa sobre o livro…

Comentário por André

do caralho, cabrón… quero ler mais desses…

Comentário por êbelga

Olha, uma xará minha de sobrenome! Não conhecia essa escritora. Gostei do seu blog! Abs

Comentário por Robles

Ficou massa!

Comentário por Maíra

tu escreve pra carái!

Comentário por marcusmourao

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