blog do André Valente


Pessoas que o tempo esqueceu
14/11/2008, 01:54
Filed under: Pessoas que o tempo esqueceu

anibal1

Aníbal da Silva – 1915-1985

Um homem feio. Assustava criança em ponto de ônibus. Tirava casca de ferida. Espremia espinha. Gritava. Grunhia. Não dizia eu te amo.

Quem o visse nunca diria que tinha controle das falanges. Sua mão operava apenas em dois modos: aberta como uma pá ou fechada como um martelo. A carne da ponta de seus dedos cercava suas unhas. Não sorria. Sua respiração parecia um ronco. Os fios de sua barba feita pareciam pregos serrados. Tinha pêlos no nariz. Sobre o nariz. Espessos pêlos pretos pelo corpo inteiro. Não mandava beijo quando desligava o telefone.

Se sentia pequeno e nunca soube se era grande. No campo periférico era uma mancha escura. Não dizia oi nem se apresentava. Sua presença já era o suficiente pra que fosse o centro das atenções. Era atendido rapidamente para que fosse embora rapidamente. Esabarrava em paredes. Esfregava os pés no chão. Tinha caspa. Estava ficando careca. Bebia. Levava moças bêbadas pra casa. Não sabia agradecer. Não sabia fazer carinho nem pedir pra ficar. Gritava. Grunhia. Via ir embora e xingava. Via a cama vazia e não conseguia chorar. Quebrava copo. Derrubava cadeira. Dormia. Roncava.

Seu nariz parecia uma laranja e seu cenho parecia um telhado. A luz não batia em seus olhos nem em pleno dia. Tinha olheira. Fumava. Bebia. Tinha ruga. Tinha ponte e obturação. Tinha mau hálito. Tinha barriga peluda. Tinha espinha nas costas. Tentava alcançá-las mas não conseguia. Tinha cicatriz na coxa esquerda. Não cortava unha do pé. Tinha chulé. Não abraçava os parentes.

Pagava por sexo. As levava pra casa e tentava fazer carinho, mas não conseguia. Fechava suas mãos nos braços finos e deixava marcas. Estapeava fraco, elas achavam forte. Pedia que o elogiassem. Pedia que sorrissem. Queria pedir que o abraçassem e o fizessem dormir enquanto cantavam e faziam cafuné, mas nunca encontrou as palavras. Terminava o serviço. Pagava. Não sabia agradecer. Xingava. Grunhia. Não conseguia chorar. Derrubava prato. Esbarrava em poltrona. Dormia. Roncava.

Fumava mais. Respirava pela boca. Não passava fio dental. Tinha requeijão nos dentes e côco na gengiva. Tinha esmegma. Tinha hemorróida. Via muita televisão. Comia no sofá da sala. Tinha as unhas sujas. Lambia os dedos. Estava sempre cansado. Bebia. Usava palito de dentes. Mastigava palito de dentes. Fumava. Bebia. Dormia no sofá. Roncava. Acordava desorientado no meio da noite. Deixava a garrafa de água fora da geladeira. Via televisão de madrugada. Acordava com chuvisco. Babava.

Comprava cigarro e não comprava pão. Não dava esmola. Mesmo que a mendiga insistisse. Mesmo que tivesse o bolso cheio de moedas. Dizia que não tinha dinheiro. Mesmo que a mendiga o acompanhasse. Não tinha nada. Mesmo que a mendiga implorasse. Queria ficar sozinho, gritava, enchia a mão de moeda e soltava na mão da mendiga. A mendiga queria mais, acompanhava até sua casa. Não sabia direito porque, mas deixava a porta aberta pra mendiga entrar. Fechava a mão em seu braço fino e deixava marca. Rasgava roupa. Jogava na cama. Estapeava. Segurava os ombros. Pedia que sorrisse. Pedia que gritasse. Queria pedir mais, mas só conseguia exigir. Forçava. Não sentia nada. Não sentiam nada. Terminava o serviço, acendia cigarro, tirava notas da carteira, pagava, botava a mendiga na rua. Batia a porta. Xingava. Esbarrava em cadeira e derrubava garrafa. Dormia. Roncava.

Tinha furo na meia. Botava pé na mesa de centro. Tinha frieira. Não esvaziava cinzeiro. Dormia fumando. Queimava sofá com cigarro. Levava susto. Acordava. Dormia. Usava roupa suja. Não trocava roupa de cama. Deixava marca na cueca. Tinha furo na cueca. Não lavava privada. Não varria chão. Fazia café e derrubava no tapete. Não lavava o tapete. Passava meses sem dizer uma palavra. Gritava de noite para lembrar da própria voz. Quebrava cadeira e esbarrava na cama. Bebia. Acordava no chão. Babou no tapete sujo de café.

Comprava cigarro e não comprava pão. A mendiga o olhava. A mendiga o encarava. A mendiga o acusava. Agasalhada, a mendiga escondia algo: sua própria barriga. Ele parou.

Não queria produzir uma criança feia. Não queria amaldiçoar uma alma com sua feiúra. Não queria ver um menino crescer com nariz de laranja e cenho de telhado. Com espinha nas costas. Com chulé, hemorróida, caspa e espessos pêlos pretos pelo corpo inteiro. Se pudesse, salvava a si mesmo de ser o que era. O mínimo que podia fazer era salvar alguém. Impedir que outra pessoa tivesse seu requeijão nos dentes e seu côco na gengiva. Empurrava. Fechava a mão. Como martelo. Batia. Socava. Não podia permitir que nascesse outra pessoa que não saberia fazer carinho nem conseguiria chorar. Xingava. Gritava. Batia. Chutava. Respirava fundo, como um ronco. Imaginava um bebê com cicatriz na coxa esquerda, como se fosse possível herdar ferimento. Apoiava o corpo em cada soco. A mendiga não se defendia mais. Sangrava. Ela parou de se mexer. Ele grunhia e gritava. Sorriu. De alguma forma achava que estava fazendo coisa bonita.

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3 Comentários so far
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nooossa, que pesado…
mas eu li tudo, isso é bom?
putz…

Comentário por federix

Solo contra todos.
Quase dá pra dizer que sou eu.
é isso aí filha da puta muito bom.

Comentário por ebelga

eu achei foda!
parabéns

Comentário por joao francisco




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